Emaranhado.
Desde o primeiro momento estamos em movimento. Aprendendo, errando, crescendo, até mesmo morrendo aos poucos.
Para ser direto, a primeira vez que morte, num sentido geral, num momento lúcido, não juvenil, ou melhor, infantil (como ocorre na adolescência) me passou pela cabeça foi neste ano que passou.
Não dá pra fugir, simplesmente vem e vai do mundo todos os dias, triste, dolorido, não dá para escapar, simplesmente ocorre.
Não a arte de morrer, o verbo, mas a parte filosófica disso, o não existir, o não estar, o deixar de existir que quero comentar (ou melhor, a vida?). Às vésperas de completar 25 anos, chego num primeiro momento, num ponto onde começo a calcular e levo em consideração que, com sorte, tenho o dobro do que já vivi aqui neste planeta.
Daqui a cinco anos, será quase como ganhar na loteria viver o dobro do que já vivi, afinal, 3x30...
Vejo tantos homens que dizem que a paternidade os mudou, comigo foi diferente. Parece que já nasci pra isso, já tinha consciência dos meus deveres. Mas claro, algo internamente muda. Não consigo mais ver tragédias ou mesmo filmes que envolvem crianças sendo machucadas ou qualquer outra coisa desse tipo. Não consigo não explodir em amor quando lembro do sorriso do meu pequeno, ou mesmo dos passinhos desajeitados que ele dá, ou então quando acorda de madrugada e ergue os bracinhos pedindo colo.
Todas essas ocorrências com meu pequeno mocinho me trazem lembranças da infância. Indiferente de uma menininha (digamos que era a imagem máxima da pureza e inocência que eu tinha na minha mente), meu mocinho também é tudo isso e mais um pouco, assim como eu já fui um dia.
Um dia eu fui pequeno e inocente, rosado e gostoso de apertar. Hoje é a vez dele, e a minha de poder dar todo esse amor que alimento todos os dias.
Então ao me olhar no espelho, vejo um pai jovem, completamente maluco e imaturo, sem as qualidades que alimentei por todos esses anos de como um pai deveria ser sendo que sou completamente o oposto! Não tenho cabelos grisalhos (na verdade aparece um ou outro em momentos de stress, mas no geral tenho perdido mais cabelo do que tenho cabelos brancos), nem mesmo tenho jeito para dar ordens, tenho a tendência a ter crises emocionais, enfim, todas as coisas que nunca vi meu pai ter ou fazer. Eu sou completamente adolescente... Mas sou extremamente maduro em outros aspectos ao mesmo tempo, como por exemplo saber qual o meu lugar e como cuidar do meu pequeno. Talvez as maiores mudanças aconteçam após o nascimento do primeiro filho, não nos primeiros anos, mas algo gradativo, simplesmente aconteça por que ele existe e você tem essas responsabilidades, sei lá.
E a morte entra bem aí, no meu dia a dia, logo após as maluquisses da adolescência terem acontecido e onde você começa a ser um adulto, a morte já vem e te assombra internamente. O éon de uma vida média nesses tempos que vivemos é longo, mas tudo se esvai, dia após dia.
E então um dia estarei segurando meu neto e talvez terei mais 30 anos de vida pela frente? quem sabe?
Nesse emaranhado de pensamentos e emoções que me ocorrem agora, volto ao ponto onde ainda me vejo como inocente e precisando de carinho e amor (aí que minha mulher entra, ela mesmo diz que tem dois filhos), igual ao meu filho, igual ao dia em que tinha a idade dele. Essa é a mágica de viver, eu acho, ser o mesmo desde os primórdios da vida e conseguir ver Deus nesses pequenos detalhes, onde toda essa dança que acontece, é o verdadeiro Deus.
Agora eu tenho medo de morrer, diferente da adolescência onde pensava que morrer era a solução pra tudo. Eu estou feliz, mesmo cercado e rodeado de problemas de diversas causas e soluções, mesmo ainda sendo um moleque completo por dentro, sem saber onde botar o pé no próximo minuto ou mesmo qual será a nova maluquisse que irei inventar de fazer, eu tenho medo. E tenho por que eu finalmente encontrei e compreendi por que. (pra quando o filho da puta do meu filho inventar de discutir comigo quando for mais velho eu dar uma vassourada na cabeça dele!).
Se eu puder te dar um presente, que seja a capacidade de compreender o mundo como comecei a compreender depois que você nasceu, mas isso da mesma forma que você fez comigo, sem mudar quem eu sou, pra não ficar careta e com jeito carrancudo.
Incrível como até mesmo a morte gira em torno da vida.
E se um dia eu morrer, saiba que independentemente da bosta que você faça da tua vida, eu tenho orgulho de você.